Na próxima terça-feira, volta este espaço às habilidosas mãos do nosso mais consagrado cronista, o insuperável Gonzaga Rodrigues. Quando o editor Joanildo Mendes me convocou para substituí-lo nas férias, fiquei sem saber direito o que fazer: manteria o tom de crônica, que já impregnou este espaço, ou me limitaria ao ramerrão das sofríveis resenhas políticas?
Lembrei do ditado que Marcos Pires não esquece: sapateiro, vai cuidar dos teus sapatos. Assim, obriguei os leitores desta terceira página a conviver 30 dias com assuntos que, se não a diminuíram tão completamente, no mínimo a transformaram nesse pouco feijão-com-arroz que me foi possível servir. Martinho Moreira Franco é quem diz que, para uma certa geração de jornalistas, Gonzaga foi e é uma espécie de pai profissional. Na verdade, ele é um grande irmão. Sabe das coisas - do sentido embutido que elas têm - muito antes de nelas cogitarmos.
Era sua - e talvez ainda devesse ser - a melhor orientação sobre o uso do bodoni ou do garamont nas diagramações dos nossos sonhos. Era sua - e ainda é - a mais recomendável indicação sobre o sujeito que limpa carburador ou injeções eletrônicas. Ou sobre o gerente de banco que não tem frescura ou, ainda, sobre o mais novo livro que acabara de chegar às prateleiras da livraria do velho Bartolomeu.
Nas Redações, sempre foi um caçador de talentos. Melhor ainda: de todos nós era - e ainda é - o que mais sinceramente se emociona com o texto a-lheio e o que mais rapidamente reconhece o seu valor.
Autor de crônicas até hoje inigualáveis, diz-se dele
que cometeu um grande erro na vida: não emigrou. Gostaríamos
de tê-lo visto nas melhores companhias da grande imprensa, filando cigarro
de Cláudio Abramo, discutindo manchetes com Alberto Dines e chamando
Rubens Braga de Rubinho. Na área do jornalismo, incluindo os que foram
para o sul-maravilha e os que ficaram, foi o nosso melhor produto de exportação.
Mas preferiu o sítio. Queríamo-lo como expressão nacional,
mas não teríamos sido os mesmos sem a sua presença diária
e os seus comentários sobre aquilo que produzíamos.
Gonzaga Rodrigues continua sendo o melhor tradutor de nossas emoções.
E com toda certeza um dos maiores cúmplices da história recente
de João Pessoa.
Mas o que o faz ser um grande cronista é, fora de dúvida,
o fato de ele ser um grande cidadão. Cidadão, não, ser
um grande pessoense. Nascido lá em Alagoa Nova, com estágio
probatório em Campina Grande, foi nos limites do Sanhauá até
as águas de Tambaú, que ele se completou. Que ele se achou tão
bem, mas tão bem localizado que pôde trazer para o nosso deleite
as histórias do interior, que compõem a sua vida, esteja ele
aqui ou em Paris, onde tem uma filha, Belinha, morando há muitos anos.
João Pessoa deu régua e compasso a Gonzaga. Alagoa Nova deu
a semente.E que semente!!